
Uma pesquisa inédita divulgada nesta semana traz um número que deveria estar na mesa de qualquer diretoria brasileira discutindo inteligência artificial: apenas 13,8% das empresas do país já conseguiram escalar agentes de IA para dentro da operação real. O restante, na prática, ainda está preso em algum estágio anterior.
O dado vem da terceira edição do Panorama da Inteligência Artificial no Brasil, estudo produzido pela Zappts, empresa com mais de uma década de atuação em transformação agêntica. A pesquisa ouviu 167 executivos de tecnologia, inovação e negócios entre abril e julho de 2026, com margem de erro de 7,6% e nível de confiança de 95%. Não é uma enquete informal de LinkedIn. É um retrato metodologicamente sólido do momento real que as empresas brasileiras vivem com IA.
O Que é o Purgatório das POCs
A própria Zappts batizou o cenário atual de purgatório das POCs, sigla para prova de conceito. Segundo o levantamento, 48% das empresas brasileiras estão exatamente nesse limbo: já saíram da fase de experimentação pura, mas ainda não conseguiram transformar esses experimentos em aplicações produtivas rodando em escala.
A pesquisa também mapeia a evolução do foco das empresas ano a ano, e essa linha do tempo ajuda a entender por que chegamos a esse gargalo. Em 2024, a atenção estava em IA generativa, produção de conteúdo e copilotos. Em 2025, o foco migrou para chatbots, assistentes virtuais e RPA, buscando eficiência e redução de custo. Em 2026, a atenção se deslocou para a chamada transformação agêntica, o uso de agentes capazes de executar processos inteiros de ponta a ponta, com autonomia muito maior do que qualquer copiloto anterior.
O problema é que dar esse salto de ambição técnica sem resolver as bases organizacionais deixou a maioria das empresas travada exatamente no meio do caminho. Fazer uma prova de conceito isolada é relativamente fácil. Conectar esse agente ao core do negócio, com governança e segurança de verdade, é o desafio real.
O Descompasso Que Ninguém Está Falando: Ninguém Mede Retorno
Aqui está um dos dados mais preocupantes do estudo. 55,1% das empresas brasileiras não possuem nenhum mapeamento estruturado de retorno sobre investimento em inteligência artificial. Esse número saltou 24,5 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, feito em 2025, quando a taxa de empresas sem controle de ROI era de 30,6%.
Ou seja, o problema piorou, não melhorou, mesmo com um ano inteiro de amadurecimento do mercado. Apenas 19,8% das empresas medem retorno com clareza e de forma recorrente. A própria pesquisa aponta a explicação mais direta: o uso desenfreado de IA dentro das corporações cresceu mais rápido do que a capacidade de medir os resultados desse uso.
Isso confirma algo que trago com frequência nas minhas consultorias: comprar ferramenta de IA é fácil. Construir o processo de medição que prova se aquilo está realmente gerando valor é o trabalho que a maioria das empresas ainda não fez.
Orçamento: A Barreira Que Vem Antes de Qualquer Discussão Técnica
Outro dado que chama atenção: 26,2% das empresas brasileiras não têm orçamento definido para projetos de agentes de IA. Outros 19,5% precisam disputar espaço dentro do orçamento tradicional de TI, sem verba própria destinada especificamente a isso. Somados, isso significa que quase metade das empresas do estudo está tentando escalar uma transformação estratégica sem nunca ter formalizado quanto dinheiro está realmente disponível para isso.
Isso explica boa parte do purgatório das POCs. Um projeto sem orçamento próprio nunca sai da fase de piloto porque nunca teve, desde o início, o compromisso financeiro necessário para virar operação real.
A Barreira Número Um: Segurança da Informação
Entre todos os entraves apontados pelos executivos entrevistados, segurança da informação e privacidade lidera com 13,7% das menções. Isso conecta diretamente com o que escrevi aqui sobre shadow AI agents: a própria Zappts identificou o mesmo fenômeno que eu descrevi, áreas de negócio criando os próprios agentes em ferramentas low-code, como o n8n, deixando a TI às cegas quanto a custo de token, versionamento de código e, principalmente, segurança da informação.
Não é coincidência duas fontes independentes chegarem à mesma conclusão na mesma semana. É confirmação de que esse é o gargalo real que separa empresas que escalam de empresas que ficam presas em POCs isoladas e inseguras.
O Diagnóstico: Onde a Sua Empresa Está
Com esses números na mão, vale fazer um exercício honesto. Responda para você mesmo, sem filtro: a sua empresa já tem algum agente de IA rodando em produção real, integrado a sistemas críticos, ou ainda está testando prova de conceito isolada? Existe hoje um número claro, documentado, de quanto essa IA já economizou ou gerou de receita? Existe orçamento próprio para projetos de agentes, ou tudo depende de disputar verba dentro do orçamento genérico de TI?
Se a resposta para a maioria dessas perguntas for não, sua empresa não está sozinha. Está exatamente ao lado de 86,2% das empresas brasileiras. O problema é que estar acompanhado não resolve a desvantagem competitiva que isso gera frente aos 13,8% que já saíram na frente.
Como Sair do Purgatório na Prática
A saída não passa por mais entusiasmo ou mais ferramentas. Passa por três movimentos concretos que costumo trazer para dentro das consultorias. Definir métrica de retorno antes de começar qualquer projeto novo de agente, não depois. Formalizar orçamento próprio para IA agêntica, separado do orçamento genérico de TI, para que o projeto tenha flego financeiro real até chegar à produção. E construir governança e segurança desde o primeiro prototípio, não como uma etapa posterior que nunca chega a acontecer.
É exatamente esse o trabalho que venho descrevendo aqui com o Agentic Office da Simplí: em vez de deixar cada área criar sua própria automação isolada e sem controle, construir desde o início uma estrutura de agentes com governança, métrica e segurança já embutidas, exatamente o que separa uma prova de conceito que nunca sai do papel de uma operação que realmente escala.
A pergunta que fica para qualquer liderança que chegou até aqui é direta: a sua empresa já sabe, com número na mão, se está entre os 13,8% que conseguiram escalar, os 48% presos no purgatório das POCs, ou ainda nem começou a experimentação de verdade? Porque enquanto essa resposta não existe de forma clara, é impossível saber se você está avançando ou apenas gastando tempo e orçamento em algo que nunca vai sair do papel.
Alexandre Guimarães
Especialista em Inteligência Artificial e Transformação Digital
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