
Duas pesquisas divulgadas com menos de dez dias de diferença, entre 18 e 24 de setembro, mostram o retrato mais preciso que já vi do momento real da inteligência artificial no varejo brasileiro.
A primeira, da Visa em parceria com a PYMNTS Intelligence, ouviu 2.273 consumidores e 501 estabelecimentos comerciais e chegou a um número que resume o problema inteiro: 74% dos varejistas esperam que agentes de IA respondam por pelo menos 5% das suas vendas digitais nos próximos dois anos, mas só 15% dizem estar preparados para operar nesse cenário.
A segunda, da Neogrid em parceria com a Opinion Box, ouviu mais de mil brasileiros entre 7 e 13 de agosto e mostrou que 38,4% já usam IA em algum momento da jornada de compra, mas o supermercado físico segue como destino preferido de 39,3% dos entrevistados. Juntas, essas duas pesquisas contam a mesma história por ângulos diferentes. O consumidor já mudou o jeito de pesquisar, comparar e decidir, e o varejo ainda não mudou o jeito de vender.
O Consumidor Já Pesquisa Com IA, Mas a Decisão Final Continua no Balcão
Segundo o levantamento da Neogrid, 77,7% dos brasileiros já combinam compra física e digital na mesma jornada, o que "Figital"ou "Phigital" , e entre quem usa inteligência artificial nesse processo, 45,4% pesquisam recomendações de produto, 45,2% comparam pelo menos duas opções antes de decidir e 37,5% tentam encontrar cupom de desconto. Ainda assim, supermercados e hipermercados continuam concentrando 39,3% da preferência de compra, à frente de atacarejo, marketplace e e-commerce próprio somados. "O consumidor ganhou meios para consultar, cotejar e rever escolhas, mas a palavra final segue com ele", resume Leandro Murta, diretor-executivo da Neogrid. Essa frase, para mim, é a chave de leitura de todo esse momento. IA não está substituindo a decisão de compra no Brasil. Está entrando antes dela, na etapa de pesquisa, e é exatamente aí que o varejo brasileiro ainda não sabe aparecer.
O Varejo Sabe Que Isso Vem, Mas Não Sabe Nem Medir o Que Já Está Acontecendo
A pesquisa da Visa mostra que esse atraso não é falta de consciência. 74% dos varejistas brasileiros já esperam crescimento relevante de vendas mediadas por agentes de IA em até dois anos, e 70% dos consumidores dizem que pretendem usar esses agentes para comprar no mesmo período. O problema está na execução. Só 15% das empresas se dizem prontas para operar nesse modelo, e apenas 21% conseguem identificar quando uma venda teve origem em uma plataforma de IA. Isso significa que a grande maioria do varejo brasileiro está prestes a vender através de agentes que nem consegue enxergar no próprio funil. Gustavo Carvalho, VP de Serviços de Valor Agregado da Visa Brasil, resume bem: "os dados mostram que consumidores e estabelecimentos comerciais já enxergam um papel crescente para a inteligência artificial nas compras, mas essa evolução também exige preparação do varejo".
A Raiz do Problema Não é Tecnologia, é Dado Organizado
Depois de acompanhar de perto esse tipo de operação, chego sempre à mesma conclusão. O gargalo não é falta de ferramenta de IA disponível no mercado, é falta de dado estruturado para alimentar essa ferramenta. Um agente de IA só consegue recomendar produto certo, responder preço atualizado ou confirmar estoque disponível se o varejista tiver esse dado organizado e acessível em tempo real. Foi esse princípio que aplicamos na Simplí, na plataforma de atendimento com agente de IA e CRM integrado ao WhatsApp e Instagram. O agente só funciona bem porque consulta dado real do negócio antes de responder, não porque decorou um roteiro. É essa mesma lacuna que separa os 74% que apostam no futuro dos agentes dos 15% que já têm estrutura para vender através deles.
O Alerta Para Quem Lidera Varejo Agora
O consumidor brasileiro já não espera mais permissão para usar IA na compra. Ele já pesquisa preço, já compara opção e já busca cupom com ajuda de inteligência artificial antes de decidir onde comprar, seja no supermercado da esquina ou no marketplace. A pergunta que fica para quem toma decisão de tecnologia e varejo agora é direta. Se 74% do mercado já espera vender através de agentes de IA nos próximos dois anos, sua empresa está entre os 15% que já organizaram o dado para isso acontecer, ou vai descobrir esse número tarde demais, quando o concorrente já estiver vendendo através do agente que você ainda nem sabe identificar no seu próprio relatório de vendas?
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Alexandre Guimarães
Especialista em Inteligência Artificial e Transformação Digital
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