
Agentes de inteligência artificial já começam a sair das demonstrações e assumir etapas de trabalho em empresas brasileiras. Um retrato publicado pelo Valor em 26 de outubro de 2026 mostra três caminhos: o Magalu usa uma arquitetura multiagente no atendimento e na jornada de compra; a Roche aplica agentes a processos ligados à saúde, pesquisa e desenvolvimento de pessoas; e o Bradesco reúne agentes especializados para apoiar equipes de tecnologia.
O ponto que me chama atenção não é apenas o tipo de tarefa automatizada. É a forma como os humanos continuam responsáveis por definir limites, revisar exceções e orientar melhorias. Os exemplos são relevantes, mas os números divulgados pelas próprias empresas não devem ser lidos como prova independente de retorno ou como promessa para qualquer operação.
O que muda quando a IA vira agente
Um assistente generativo responde a uma solicitação. Um agente pode, dentro de permissões definidas, acessar sistemas, executar etapas e encaminhar uma tarefa até determinado resultado. Isso não significa autonomia irrestrita: o escopo, os dados disponíveis, as ações permitidas e os momentos de escalonamento para uma pessoa são decisões de projeto e governança.
Magalu: atendimento conversacional com avaliação humana
O dado de 9 milhões mede conversas geradas. Não informa, por si só, quantas foram resolvidas sem ajuda, quantas resultaram em compra, qual foi a satisfação ou o custo por atendimento. Para avaliar o desempenho, eu acompanharia a jornada inteira: resolução correta, transferências para humanos, repetição de contato, conversão quando fizer sentido, reclamações e custo total, incluindo operação e revisão.
Roche: agentes em pesquisa, dados e desenvolvimento profissional
Aqui, a oportunidade está menos em automatizar uma conversa e mais em conectar dados e etapas de trabalho. Em saúde, isso exige cuidado adicional: apoio a processos não deve ser confundido com decisão clínica validada. É importante saber quais dados são usados, quem pode acessá-los, como resultados são conferidos e quando uma recomendação precisa de avaliação especializada. A reportagem descreve aplicações, mas não fornece métricas comparáveis de impacto clínico ou operacional.
Bradesco: uma plataforma de agentes especializados para tecnologia
Esses percentuais são relatos corporativos, não benchmarks independentes. A matéria não detalha, para cada indicador, a linha de base, a amostra, o período, a definição de eficiência ou o impacto sobre defeitos em produção. “Até 95%” também não deve ser confundido com um resultado médio em todos os processos. A acurácia dos testes precisa ser acompanhada de cobertura relevante e detecção de falhas reais, não apenas de testes gerados.
O que esses casos ensinam sobre supervisão
Os três exemplos mostram que “colocar um agente em produção” não é uma única decisão. No varejo, o risco inclui respostas inadequadas, privacidade e falhas na jornada do cliente. Em saúde, entram a sensibilidade dos dados e a necessidade de validar usos em processos críticos. No banco, mudanças em código, incidentes e documentação exigem trilhas de auditoria e revisão proporcional ao impacto.
Autonomia precisa de fronteiras claras
Na prática, eu começaria com permissões mínimas e ações reversíveis. O agente deve ter uma identidade própria, acesso apenas aos sistemas necessários e limites explícitos para o que pode consultar, alterar ou concluir. Decisões de alto impacto, exceções e situações ambíguas precisam de aprovação ou transferência para uma pessoa. Também é essencial registrar ações, permitir auditoria e ter um mecanismo para interromper ou revogar o acesso.
Medir o resultado completo, não só a velocidade
Reduzir o tempo de uma etapa pode ser valioso, mas não basta. Uma avaliação séria combina qualidade, taxa de erro, retrabalho, latência ponta a ponta, custo por tarefa concluída, escalonamento humano e impacto sobre clientes e funcionários. O piloto precisa usar casos representativos, incluir situações difíceis e comparar o processo anterior com o novo. Se a revisão humana consome o tempo economizado, a conta muda.
A lição para quem não é uma grande empresa
Magalu, Roche e Bradesco estão usando agentes em contextos diferentes, e justamente por isso não existe uma métrica única para comparar os três. O que existe é um princípio comum: quanto mais autonomia a tecnologia recebe, mais importantes ficam os limites, a prestação de contas e a avaliação do trabalho feito. Na sua empresa, qual processo poderia ganhar autonomia sem perder controle — e que evidência provaria que o agente realmente melhorou o resultado?
Fontes
Alexandre Guimarães
Especialista em Inteligência Artificial e Transformação Digital
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