
Essa semana marcou um daqueles pontos de virada que eu gosto de registrar aqui no blog, porque muda a conversa dentro das empresas antes mesmo de virar manchete de jornal econômico. No dia 10 de setembro a OpenAI abriu em beta pública a sua Agents API, colocando à disposição de qualquer empresa a mesma infraestrutura de orquestração de agentes que hoje roda por trás do Codex, com sessões longas, subagentes e coordenação de tarefas complexas em uma única chamada. No mesmo momento, o MCP, o Model Context Protocol que virou padrão de mercado para conectar agentes de IA a sistemas corporativos, segue amadurecendo como a língua que esses agentes usam para conversar direto com ERPs como SAP, TOTVS, Oracle e Salesforce.
Na prática, isso significa que a barreira técnica que separava um agente de IA de um sistema de gestão está caindo rápido. Até pouco tempo atrás, conectar um agente ao ERP da empresa exigia construir conectores customizados, geralmente em Python, geralmente caros, geralmente lentos de manter. Com o MCP maduro e a infraestrutura de agente acessível via API, esse caminho encurta. Um agente passa a entender a estrutura do ERP quase instantaneamente e consegue ler estoque, consultar pedido, gerar nota ou montar uma ordem de compra em segundos, sem um time inteiro de integração por trás.
Eu entendo por que isso empolga tanto gestor que eu converso. É ganho de velocidade real, é redução de custo operacional, é a promessa de tirar do time humano a parte mais repetitiva do trabalho dentro do ERP. Mas eu preciso ser direto com você aqui, essa mesma facilidade que empolga é exatamente o que deveria acender um alerta antes de qualquer empresa sair plugando agente em sistema de produção.
O primeiro ponto é governança. Quando um agente de IA passa a ler e escrever direto no ERP, alguém precisa responder com clareza para três perguntas. Quem aprovou esse agente para agir sozinho nessa parte do sistema. O que ele pode decidir sem intervenção humana e o que exige aprovação antes de executar. E existe um rastro auditável de cada ação que ele tomou, para quando algo sair errado e a empresa precisar entender o que aconteceu. Empresa que já opera centenas ou milhares de agentes está criando modelos novos de governança justamente porque o modelo antigo, pensado para sistema estático, não segura um agente que toma decisão em tempo real.
O segundo ponto é segurança. Todo agente que ganha acesso direto a um sistema corporativo aumenta a superfície de ataque da empresa. Levantamento recente da Check Point mostra que quase todas as empresas, próximo de 93%, já registram algum tipo de interação de alto risco com IA generativa todos os meses. Ligar um agente ao ERP sem permissão granular bem definida é abrir uma porta nova para vazamento de dado sensível, decisão indevida ou uso malicioso, e essa porta precisa ser projetada com o mesmo rigor que a empresa usa para proteger o próprio ERP hoje.
O terceiro ponto, e esse eu vejo pouca gente comentando, é a dependência de um único fornecedor. Quando uma empresa constrói toda a sua operação de agentes em cima de um único provedor de IA, ela fica exposta a qualquer mudança de preço, de política de uso ou até de instabilidade daquele fornecedor. Se o contrato muda, se o modelo sai do ar, se a empresa decide reposicionar o produto, quem construiu tudo em cima de um fornecedor só paga essa conta sozinho. A recomendação que eu tenho repetido é simples, pensar a arquitetura de agentes de forma que ela não fique refém de um único ecossistema, com portabilidade real entre modelos e fornecedores.
É exatamente esse conjunto de frentes, governança, segurança e independência de fornecedor, que a gente trata dentro do Agentic Office da Simplí antes de qualquer agente de IA ir para produção dentro de uma empresa. Não é sobre desacelerar a adoção, é sobre entrar nela com controle, porque a empresa que planeja essas três frentes com antecedência colhe o ganho de produtividade sem herdar o risco junto.
A infraestrutura para colocar agentes de IA dentro do ERP da sua empresa está pronta, mais pronta do que estava há um mês. A pergunta que fica é outra. A sua empresa já sabe quem vai governar essas decisões, quem vai proteger esses dados e o que acontece se o fornecedor de IA que vocês escolheram hoje mudar as regras amanhã?
Alexandre Guimarães
Especialista em Inteligência Artificial e Transformação Digital
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