
Saúde sempre foi um setor de paradoxos: de um lado, profissionais sobrecarregados, filas, burocracia e custos crescentes; do outro, uma pressão enorme para entregar cuidado mais humano, rápido e personalizado.
Nos últimos anos, eu tenho visto um novo ator entrando nesse tabuleiro: os agentes de IA na saúde. Eles não aparecem só como “chatbots simpáticos”, mas como agentes autônomos que ajudam a cuidar da jornada inteira do paciente — do primeiro contato ao pós-consulta — e da operação por trás disso.
Neste último artigo da série “Agente de IA em Ação”, eu quero mostrar como isso já está acontecendo no Brasil, com cases reais de healthtechs e instituições que colocaram agentes de IA para trabalhar de verdade.
Por que falar de agentes de IA na saúde agora
Se tem um setor em que tempo e eficiência viram literalmente vida, é a saúde.
Hoje, operadoras e hospitais convivem com:
filas de atendimento e agendamento,
falta de profissionais,
prontuários e processos cheios de burocracia,
fraudes e desperdícios que drenam bilhões de reais todos os anos.
Estudos do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) estimam que fraudes, abusos e desperdícios consumam algo em torno de R$ 28 a R$ 34 bilhões por ano dos gastos das operadoras com contas hospitalares e exames.
Ao mesmo tempo, uma nova geração de healthtechs brasileiras começou a usar agentes de IA na saúde para atacar justamente esses gargalos:
A Nilo já opera com milhões de pacientes na plataforma, usando agentes digitais de IA generativa para captar, engajar e navegar pacientes em jornadas personalizadas, automatizando tarefas administrativas e liberando profissionais para cuidar de gente.
A Doutor-AI nasceu com a proposta de criar centenas de agentes autônomos para acompanhar a jornada completa do paciente — do primeiro atendimento ao monitoramento — e hoje fala em mais de 700 agentes de IA atuando em diferentes funções.
A Carefy lançou um ecossistema de Agentes de Inteligência Artificial (AIA) focados em auditoria em saúde, apoiando operadoras na detecção de fraudes e ineficiências ao longo de todo o ciclo de sinistros, com impacto direto em custos.
Projetos apoiados pela Finep e desenvolvidos por empresas como Ana Health e MV estão criando agentes e modelos de IA generativa verticalizados para o setor de saúde brasileiro, com foco específico em Atenção Primária à Saúde Digital (APS-Digital) e suporte ao SUS.
Ou seja: não é mais “se” a saúde vai trabalhar com agentes de IA. É como cada instituição vai usar esses agentes na jornada do paciente e na operação.
O que é um agente de IA na saúde, na prática
Quando eu falo em agentes de IA na saúde, não estou falando só de um chatbot no site do hospital.
Eu estou falando de sistemas que:
entendem contexto clínico e administrativo (dados do paciente, histórico, convênio, regras da operadora, protocolos de cuidado);
se conectam a sistemas reais (prontuário eletrônico, sistemas de gestão hospitalar, plataformas de agendamento, CRM, ferramentas de auditoria e billing);
conseguem tomar decisões dentro de regras definidas (por exemplo: qual canal usar, quando remarcar, quando escalar para humano, quando abrir alerta);
e principalmente: executam ações — agendam, enviam mensagens, consolidam informações, anotam em prontuário, abrem tarefas, geram relatórios.
Na prática, esses agentes de IA viram:
uma recepcionista digital que cuida de triagem e agendamento,
um agente de pós-consulta que acompanha o paciente,
um auditor automático que analisa contas médicas,
um copiloto de atenção primária que apoia médicos e equipes na tomada de decisão.
Casos brasileiros de agentes de IA em ação na saúde
Vamos a 2 exemplos que eu mais gosto de trazer quando falo desse tema.
1. Carefy – agentes de IA na auditoria em saúde e combate a fraudes
Na outra ponta da jornada, a Carefy mostra como agentes de IA podem gerar valor enorme na auditoria de saúde.
A empresa é especialista em processos de auditoria e já cobre milhões de vidas com uma solução que automatiza fluxos de trabalho, reduzindo erros e aumentando a eficiência de operadoras.
Nos últimos meses, a Carefy lançou seus Agentes de Inteligência Artificial (AIA), um conjunto de agentes autônomos desenhados para:
analisar contas médicas e detectar inconsistências,
identificar padrões de fraude, abuso e desperdício,
sugerir pontos de contestação,
apoiar equipes na tomada de decisão com base em dados.
Matérias recentes lembram que o problema é gigante: estudos do IESS falam em R$ 28 a 34 bilhões por ano em fraudes, abusos e desperdícios na saúde suplementar.
Nesse contexto, agentes de IA que conseguem garimpar essas distorções em escala deixam de ser “nice to have” e passam a ser estratégicos para a sustentabilidade do sistema.
2. Ana Health, APS-Digital e o SUS – agentes de IA com impacto social
Movimento que eu acompanho com atenção é o da Ana Health, em parceria com universidades e com apoio da Finep, criando agentes de IA focados na Atenção Primária à Saúde Digital (APS-Digital) e no SUS.
O projeto prevê um agente virtual com IA generativa para oferecer suporte personalizado a pacientes e profissionais de saúde, integrando dados clínicos e sociais para:
apoiar avaliação de sintomas dentro de protocolos seguros,
automatizar parte do agendamento,
enviar lembretes de medicação e orientações,
melhorar o letramento em saúde da população,
ajudar equipes a priorizar casos e territórios mais vulneráveis.
Aqui, a conversa vai além de eficiência: é IA com propósito social, escalando cuidado e informação num sistema que precisa fazer muito com recursos limitados.
Onde eu começaria com agentes de IA na saúde
Vamos olhar para quatro grandes frentes onde agentes de IA na saúde fazem muito sentido:
Atendimento, triagem e agendamento
Agente que atende 24/7 em voz ou texto;
realiza triagem básica com protocolos definidos;
verifica elegibilidade, agenda e remarca consultas;
reduz fila de telefone e tempo de espera.
2. Engajamento e cuidado contínuo
Agentes que enviam lembretes de medicação, exames e retornos;
conduzem check-ins de sintomas;
engajam pacientes em programas de doenças crônicas, gestação, saúde mental.
3. Backoffice, auditoria e faturamento
Agentes que analisam contas, detectam inconsistências e sugerem contestação;
automatizam fluxos com operadoras;
reduzem tempo de análise e risco de erro humano.
4. Suporte ao profissional de saúde
Agentes que resumem prontuários, organizam informações e sugerem pontos de atenção;
geram relatórios e documentação a partir de notas e voz;
ajudam a reduzir o tempo gasto em burocracia, liberando médico e equipe para o cuidado.
Em todos esses casos, para mim a chave é a mesma:
o agente de IA não substitui o humano — ele libera o humano para cuidar melhor de pessoas.
Governança, ética e responsabilidade no uso de IA na saúde
Saúde é, talvez, o setor onde não dá para brincar com IA.
Dados são sensíveis, decisões têm impacto direto em vidas e a relação de confiança é tudo.
Por isso, sempre que eu falo de agentes de IA na saúde, eu reforço alguns pontos de atenção:
LGPD e segurança de dados Garantir criptografia, controle de acesso, logs de auditoria e políticas claras de uso de dados.
Transparência para pacientes e profissionais Deixar claro quando o paciente está falando com um agente, e quando está falando com um humano.
Human in the loop Definir limites: em que casos o agente pode fechar um fluxo sozinho e em que situações deve obrigatoriamente acionar um profissional.
Protocolos clínicos e validação Toda lógica clínica usada pelos agentes precisa ser baseada em protocolos e revisada regularmente por equipes técnicas.
Se a gente combina potência tecnológica com governança séria, agentes de IA têm tudo para ser uma das soluções mais importantes da saúde brasileira até 2026 e além.
Alexandre Guimarães
Especialista em Inteligência Artificial e Transformação Digital
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